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Discussão:Música eletrônica e xamanismo (Pedro Peixoto Ferreira)

De Abaete

Alguns pontos de reflexão acerca do texto de Pedro Peixoto Ferreira (Música eletrônica e xamanismo): [Aplima)


-- O argumento central é : a música eletrônica é xamânica porque vai fundo no maquinismo singular produzido por seu próprio socius -- diferente de outros maquinismos (e conseqüentemente de outros xamanismos, suponho ser a seqüência do argumento). Há portanto no texto, em certo grau, uma operacionalização de um xamanismo genérico (ir a fundo em seu próprio corpo, socius, estética, maquinismo, “pagar para vê-los”, talvez). No entanto, quanto à difundida relação entre xamanismo e técnicas do êxtase, diz-se remeter ao “fora – da sociedade, do mundo humano, do estado normal de consciência”. De uma parte do argumento, assim, todas as sociedades têm um fora e um dentro, o primeiro sempre acessado pelas técnicas de êxtase pertinentes a cada uma, as quais remeteriam a um xamanismo genérico. De outra parte, entretanto, afirma que não se trata de "fora/dentro", pois que tudo de alguma forma já é “fora” e maquínico. Pois bem, para que se juntem produtivamente essas duas proposições falta o principal, do meu ponto de vista, ponto excluído até aqui da análise: as relações de poder, a micropolítica (níveis molares e moleculares), ou seja, a relação dessa música com tudo aquilo exterior ao transe/captura pura e a-significante do movimento. Pois é somente assim, a meu ver, que se sai do impasse que a noção de simetria (quando assumida implícita ou explicitamente, conscientemente ou não) impõe aos que não pretendem (ou pretendem ?) recriar a idéia de humanismo pelo sublime/sagrado (ou arte, ou êxtase, em suma, “pelo fora do dentro”). Como é que, no final das contas, diferenciam-se não apenas xamanismo indígena e xamanismo eletrônico (assumindo a perspectiva proposta para o xamanismo genérico), mas também recortam-se as experiências/vivências da música eletrônica dentro do contexto ocidental capitalista ? Isso tudo significaria que as outras formas de música encontradas nesse contexto são menos maquínicas, ou seja, que não levam a cabo, do molecular ao cósmico, a experiência maquínico-xamânica ? [Disso eu não tenho muita certeza não, tendo a não concordar, mas de toda forma acho interessante a forma qualitativa/afirmativa através da qual é levado a cabo esse argumento]. Quanto a isso, acho que uma das chaves para o entendimento é o “retorno” do êxtase (acho que esse ponto é muito importante para se avaliar as dimensões e conseqüências políticas de imersão em cada um dos xamanismos -- avaliar suas diferenças cruciais), o que é que se produz no aprofundamento do maquinismo robótico, cibernético/capitalista, e o que é que se produz no aprofundamento do maquinismo florestal, digamos assim ? Se não levamos essa “dialética” (reterritorialização) em consideração, restamos a-politicamente "simétricos", em minha humilde opinião.


Ou seja, ao lermos esse texto sob a ótica da simetria, podemos chegar à conclusão por dedução de que ele propõe que todas as outras experiências musicais (ou sonoro-motoras, se se quiser) que não aquelas da música eletrônica seriam arcaísmos não-xamânicos (sentido universal), porque seus maquinismos não estariam congruentes com o maquinismo cibernético que supostamente domina a nossa sociedade. Ainda que se aceite isso (não tenho tanta certeza), é preciso verificar o que significa “ir a fundo no cibernetismo tecnólogico-capitalista” com relação àquilo que pretende, por sua vez, escapar desse movimento de profunda desterritorialização próprio a esse sistema/dinâmica. Ou seja, (segundo eu me aproprio do “Anti-Édipo”) a desterritorialização capitalista-tecnológica é mais extensa porque se dá/e se deu sobre um sistema de “cercamento de campos”, definição de contextos, esferas, domínios, propriedades, etc, bem como de expulsão daquilo que não deve fazer parte dos mesmos ... (segundo eu entendo o axioma central de “As palavras e as Coisas”). O que significa conjugar-se com e aprofundar ainda mais o movimento de desterritorialização ? Certamente não o mesmo que aprofundar-se no (mais intenso) maquinismo florestal já exteriorizado indígena, pois que estas sociedades não se instauram às custas de cercamentos de contextos e domínios. A meu ver, aqui há uma dissociação importante para com o xamanismo indígena -- este opera principalmente por meio das territorializações, pois que o maquinismo cósmico indígena já é assumido por todos. O que quero sugerir é que quanto às conseqüências ético-políticas de ambos os "mergulhos” sócio-maquínico-cosmológicos, digamos assim, é preciso tomar cuidado para não cair no evolucionismo inerente (mas pouco assumido) ao marxismo -- segundo o qual o desenvolvimento extremo das forças produtivas capitalistas só poderá desembocar no socialismo (não que esse texto tenha sequer sugerido algo parecido, apenas penso que é bom avaliar o que poderá ou não estar no fim do túnel). Ou por outro lado, há também o risco do niilismo existencialista de se buscar a si mesmo for the sake of it -- ou for the sake of finding what humanity is all about.


E mais: o dentro-que-não-se-opõe-ao-fora dos ameríndios (tudo já é fora) implica que não hajam “condições normais” a serem alteradas pelo êxtase xamânico, mas antes, condições reais a serem acessadas. O fora, portanto -- condições anormais de nosso ponto de vista ocidental -- corresponde ao real embora só seja mais abundantemente visto/acessado voluntariamente pelos xamãs -- as circunstâncias involuntárias ocorrem a todos, e muitas vezes são mesmo o gatilho para que um xamã se perceba xamã. Afora essas, os outros é que são “cegos”, ie, não possuem a capacidade + instrumentalidade (de várias ordens) de “ver”[1] (fato unânime na literatura, ao menos no meu entendimento). São os não-xamãs, portanto, que se destacam por sua falta de visão/audição/entendimento dessa realidade -- embora possam sentir os efeitos dessa realidade o tempo todo.


[1] não discutirei agora sobre a questão do monopólio do sentido visual, mas certamente penso que não se trata de forma alguma disso (a meu ver, trata-se mais de uma ampla percepção da densidade espacial-simbólica, onde a visão certamente está incluída).


Por fim, duas colocações me pareceram particularmente contraditórias do ponto de vista da orientação teórica do projeto (não que isso seja incomum ou inviabilize o mesmo, mas penso que não é demais atentar para elas -- ou eu entendi algo errado ?):


“Preferimos nos situar, de início, no terreno árido do não-humano pois mesmo se soubéssemos claramente o que é o humano (coisa que não sabemos de fato [38]), ele ainda assim seria apenas uma parte do mundo ao qual estamos ligados e sem o qual não podemos existir.”

e

“Se existem paralelos, eles estão sendo procurados no campo da complexidade virtual, no terreno daquilo que ainda não sabemos tanto sobre o xamanismo quanto sobre a música eletrônica, mas principalmente sobre o ser humano.”


Enfim, apenas alguns pontos que me vieram à cabeça por conta de minha pesquisa versar igualmente sobre música e por partilhar de muitas das referências teóricas expostas no texto.

Ana Paula Lima

[editar] Resposta a Aplima

Foi excitante encontrar o comentário de APLima sobre meu texto. Acho que é essa a função de um espaço como este. Respondo, portanto, num espírito inacabado, esperando que a discussão continue (mesmo que não necessariamente aqui), aqueles pontos que me pareceram mais produtivos.

Em primeiro lugar, tive a nítida impressão de que meu texto serviu de combustível para uma discussão que o antecede e em muito ultrapassa (questões de Antropologia Simétrica). Sobre isso não posso dizer nada por hora, pois, como já disse, peguei o bonde andando.

Em segundo lugar, diante do tom geral do comentário de APLima, parece apropriado citar uma passagem do meu texto original: "[N]o caso da música eletrônica, mas principalmente no do xamanismo, fenômeno que conhecemos efetivamente apenas através de relatos, etnografias, pesquisas teóricas e extrapolações da imaginação, nossas propostas devem ser tomadas apenas pelo que de fato são: propostas de pesquisa, que podem ou não ser úteis em outros casos".

Com isso, quero apenas lembrar que minha pesquisa é de cunho teórico-conceitual (se ela tem uma dimensão empírica, trata-se de um empirismo controverso para os padrões dominantes) e que ela se baseia em muitas pesquisas realizadas por terceiros tanto sobre xamanismo quanto sobre música eletrônica. Assim, eu de forma alguma posso ignorar críticas de especialistas nessas áreas.

Uma vez feita essa ressalva, creio no entanto que é útil citar outra passagem de meu texto, sobre o diferencial que vejo em minha pesquisa: "O objeto de estudo direto desta pesquisa não foram [...] as pessoas [...], mas sim aquilo que consideramos a materialização de uma relação som-movimento"

O estudo da relação som-movimento foi apenas mencionado nesse meu texto, e os resultados desse estudo ainda não foram publicados em forma de texto. Curiosamente, essa proposta de recorte analítico parece ser simultaneamente a força e a fraqueza de minha pesquisa. A força, pois é o que lhe permite escapar da questão simbólica, do discurso, daquilo que "querem dizer". A fraqueza, pois é o que dificulta a conexão de minha proposta com outras que pretendem pesquisar coisas semelhantes. E acho que é possível que essa dificuldade esteja na base dos comentários de APLima ao meu texto.

Tentando então explicar (ou complicar) melhor esse ponto, partirei de alguns pontos específicos levantados pela minha interlocutora, pela ordem de sua ocorrência em seu comentário (as citações, necessariamente editadas, podem ter distorcido a idéia original, mas isso não é novidade)

1 - "-- O argumento central é : a música eletrônica é xamânica porque vai fundo no maquinismo singular produzido por seu próprio socius -- "

Uma das magias de publicar textos é o encontro com a interpretação que cada um faz deles. Apesar de concordar em grande parte com a idéia acima (mesmo com a ambiguidade do "vai fundo"), ela de forma alguma apresenta o "argumento central" de meu texto. Se meu texto tem um "argumento central", ele está em outro nível. Seria algo como: 'Se a música eletrônica é xamânica, como dizem muitos, então temos que rever cuidadosamente nossos conceitos de xamanismo e de música eletrônica'. Que o xamanismo da música eletrônica está ligado ao trabalho esquizoanalítico com os maquinismos desejantes e sociais, essa é apenas a minha proposta de pesquisa (é claro que acredito nela, mas não posso fechar meus olhos para outras possibilidades). Vale notar também que fiquei alertado pela forma com que minha proposta de revisão conceitual do xamanismo foi rotulada (talvez pejorativamente) de "xamanismo genérico" ou "universal". Minha proposta (desde o início marcada pela humildade de um pesquisador que não tem experiência de campo com xamanismo tradicional) busca apenas contribuir para a complexificação do conceito de xamanismo, nunca para a sua simplificação. Trata-se de uma via oposta à da tecnociência, que busca simplificar fenômenos através da generalização e assim torná-los facilmente controláveis. Parto do princípio de que isso não é nem possível e nem desejável em Ciências Humanas.

2 - "De uma parte do argumento [...] todas as sociedades têm um fora e um dentro, o primeiro sempre acessado pelas técnicas de êxtase pertinentes a cada uma, as quais remeteriam a um xamanismo genérico. De outra parte, entretanto, afirma que não se trata de "fora/dentro", pois que tudo de alguma forma já é “fora” e maquínico. Pois bem, para que se juntem produtivamente essas duas proposições falta o principal, do meu ponto de vista, ponto excluído até aqui da análise: as relações de poder, a micropolítica (níveis molares e moleculares), ou seja, a relação dessa música com tudo aquilo exterior ao transe/captura pura e a-significante do movimento. Como é que, no final das contas, diferenciam-se não apenas xamanismo indígena e xamanismo eletrônico (assumindo a perspectiva proposta para o xamanismo genérico), mas também recortam-se as experiências/vivências da música eletrônica dentro do contexto ocidental capitalista? [...] Quanto a isso, acho que uma das chaves para o entendimento é o “retorno” do êxtase [...], o que é que se produz no aprofundamento do maquinismo robótico, cibernético/capitalista, e o que é que se produz no aprofundamento do maquinismo florestal, digamos assim ? Se não levamos essa “dialética” (reterritorialização) em consideração, restamos a-politicamente "simétricos", em minha humilde opinião. […] O que quero sugerir é que quanto às conseqüências ético-políticas de ambos os "mergulhos” sócio-maquínico-cosmológicos, digamos assim, é preciso tomar cuidado para não cair no evolucionismo inerente (mas pouco assumido) ao marxismo […]. Ou por outro lado, há também o risco do niilismo existencialista de se buscar a si mesmo for the sake of it -- ou for the sake of finding what humanity is all about."

Concordo com a crítica de APLima quanto à ausência, no texto sob discussão, de uma consideração mais profunda sobre as relações de poder envolvidas no xamanismo e na experiência do êxtase. Sobre isso eu já escrevi alguma coisa em outros textos, e o que posso dizer é que parto sempre do princípio de que qualquer distinção entre o dentro e o fora é resultado contingente de relações de poder. O que passa e o que é bloqueado é, desde o início, uma questão de codificação de fluxos, de limites, desvios e capturas que podem ter um coeficiente de afinidade molar/molecular maior ou menor. Nesse sentido, tendo a concordar que o retorno do êxtase pode ajudar a compreender a diferença entre xamanismo tradicional e o xamanismo eletrônico (que não se pretende de forma alguma genérico), desde que a relação dentro/fora não seja vista como uma dialética. Nesse ponto é crucial perceber que dentro e fora não existem fora de sua própria relação, que eles são o resultado metaestável de um processo de individuação e não o ponto de partida para uma dialética. Não existe aqui, portanto, simetria a-política, mas desde o início a criação de limites mais ou menos assimétricos. (sem querer sentar na janela do bonde em que acabei de entrar, me parece que a simetria antropologicamente produtiva propõe justamente o contrário da neutralização das relações de poder: é, talvez, a troca de uma assimetria tácita por uma simetria virtual a ser atualizada). Uma vez compreendido esse ponto, talvez a própria busca de diferenças entre os xamanismos tradicional e eletrônico se torne secundária. Afinal, se no nível do discurso a diferença entre os dois xamanismos é enorme (basta lembrar das apresentações de Tiago Coutinho e Joana Miller), no nível operatório eles acabam se aproximando muito e revelando apenas diferenças locais específicas. Em suma, me parece que quando atingimos de fato o nível dos maquinismos, distinções como "primitivo/moderno", "natural/artificial", deixam de ser ontológicas para se tornarem pragmáticas (máquinas sociais específicas, regimes específicos de coordenação de fluxos etc.). Acho que a política aqui se estende do objeto para a própria pesquisa (e espera-se que não seja mera repetição de nenhum dos "ismos" citados). E falando em extensão, APLima desenvolve no meio dos trechos citados algumas considerações sobre extensão, intensidade, "O Anti-Édipo" e "As palavas e as coisas" que me escapam completamente. Só o que posso dizer é que Deleuze e Guattari mudaram bastante seu tratamento do tema das máquinas sociais em "Mil Platôs", eliminando totalmente a aparência evolucionista que o tema tinha em "O Anti-Édipo".

3 – "[E]le propõe que todas as outras experiências musicais (ou sonoro-motoras, se se quiser) que não aquelas da música eletrônica seriam arcaísmos não-xamânicos (sentido universal), porque seus maquinismos não estariam congruentes com o maquinismo cibernético que supostamente domina a nossa sociedade. […] Isso tudo significaria que as outras formas de música encontradas nesse contexto são menos maquínicas, ou seja, que não levam a cabo, do molecular ao cósmico, a experiência maquínico-xamânica?"

As duas frases acima foram agrupadas arbitrariamente (elas estão distantes e em ordem invertida no comentário de APLima) apenas para me permitir uma consideração sobre o tema da especificidade da música eletrônica. Este ponto em especial se beneficiou muito da discussão com os demais integrantes do NuTI, e não sei se APLima estava lá presente. O fato é que não é possível sustentar que a música eletrônica seja mais maquínica do que qualquer outro tipo de música apenas pelo fato de ser feita com máquinas eletrônicas. Músicas tradicionais, música clássica, rock, MPB, enfim, todas as músicas me parecem trabalhar em maior ou menor grau com os maquinismos sensório-motores (me parece que é isso que Deleuze e Guattari defendem quando colocam a música acima das outras artes por seu potencial maquínico). A máquina da música clássica, por exemplo, é tão concreta quanto a máquina da música eletrônica. O que muda são as características dessas máquinas: suas maneiras de funcionar, suas dimensões espaço-temporais, suas velocidades etc. Os parâmetros mesmos a partir dos quais tais máquinas podem ser tipificadas mudam em cada caso (no caso da música clássica, por exemplo, a partitura é uma peça essencial da máquina, enquanto que na música eletrônica é inexistente). Se existe uma especificidade da música eletrônica (e essa é a perspectiva desta pesquisa) ela não se encontra na sua maior ou menor 'maquinicidade/tecnicidade', mas sim no maior grau em que essa 'maquinicidade/tecnicidade' se materializa na própria matéria sonora. A relação som-movimento inerente à música envolve muitos fatores não-sonoros que compõem, no conjunto, a relação. Concordo com Weber que o processo de racionalização da música foi o duplo processo de crescente eliminação do cálculo de tudo aquilo que não pertencia apenas à matéria sonora e diferenciação interna das tendências imanentes ao próprio som. Nesse sentido uma partitura de música clássica é uma concretização muito maior (mas longe de ser completa, é claro) de seus maquinismos do que uma partitura de MPB, cujos maquinismos envolvem muito mais elementos que escapam à partitura. Mas me parece que um passo crucial se deu na passagem do século XIX para o XX, quando música (arte) e acústica (ciência) começaram a coexistir em máquinas capazes de reproduzir tecnicamente sons. A captura do som por um aparelho técnico mudou drasticamente a relação som-movimento, e mesmo quando escutamos um CD de música clássica, a experiência está mais próxima da de um DJ do que da de um espectador de uma orquestra. Para não estender demais esse ponto, eu diria que não há nada na música eletrônica, a princípio, que a tornaria mais xamânica do que outras músicas, e eu particularmente gostaria muito de ver pesquisas consistentes sobre o xamanismo no rock, na mpb, na música clássica etc. O que distingue a música eletrônica é apenas: (1) o fato de que há já um discurso nativo sobre a sua relação com o xamanismo, (2) o fato de que esse discurso se refere a uma experiência de imersão no som que parece independer dele e (3) o fato de que, por ser baseada na recombinação técnica de amostras sonoras com o objetivo funcional de provocar o movimento, ela se presta especialmente a um tipo de análise por parâmetros técnicos e acústicos dos próprios registros sonoros.

P.S.: Acrescento aqui apenas que todas as referências às relações entre a sensibilidade urbano-tecnológica e a maior eficácia xamânica da música eletrônica me parecem secundárias com relação aos três pontos listados acima. Acho que o fato de vivermos a maior parte de nosso tempo como ciborgues ajuda a entender a eficácia ritual da música eletrônica sim. Mas não acredito que seja uma relação mecânica (sem trocadilho), como se ciborgues não pudessem ter êxtases acústicos. A relação só tem importância (e ela tem) pois o xamanismo já foi diagnosticado pelos nativos.

4 – "[O] dentro-que-não-se-opõe-ao-fora dos ameríndios (tudo já é fora) implica que não hajam “condições normais” a serem alteradas pelo êxtase xamânico, mas antes, condições reais a serem acessadas. O fora, portanto -- condições anormais de nosso ponto de vista ocidental -- corresponde ao real embora só seja mais abundantemente visto/acessado voluntariamente pelos xamãs -- as circunstâncias involuntárias ocorrem a todos, e muitas vezes são mesmo o gatilho para que um xamã se perceba xamã. Afora essas, os outros é que são “cegos”, ie, não possuem a capacidade + instrumentalidade (de várias ordens) de “ver”[…] (fato unânime na literatura, ao menos no meu entendimento). São os não-xamãs, portanto, que se destacam por sua falta de visão/audição/entendimento dessa realidade -- embora possam sentir os efeitos dessa realidade o tempo todo"

Gostei muito desse comentário e acho que concordo com tudo. Eu apenas tentaria não enfatizar a oposição nós-eles, buscando mostrar como também "no ocidente" "os outros é que são 'cegos'" (com isso acho que politizamos a pesquisa).

5 - "Por fim, duas colocações me pareceram particularmente contraditórias do ponto de vista da orientação teórica do projeto […]: “Preferimos nos situar, de início, no terreno árido do não-humano pois mesmo se soubéssemos claramente o que é o humano (coisa que não sabemos de fato), ele ainda assim seria apenas uma parte do mundo ao qual estamos ligados e sem o qual não podemos existir.” e “Se existem paralelos, eles estão sendo procurados no campo da complexidade virtual, no terreno daquilo que ainda não sabemos tanto sobre o xamanismo quanto sobre a música eletrônica, mas principalmente sobre o ser humano.” "

Agradeço a observação, principalmente pelo que demonstra da dificuldade que há em expor minha proposta. Qual é a contradição entre as duas frases? Eu sinceramente não vejo. Mas, por um esforço de deslocamento, posso intuir algumas possibilidades: pode ter sido sentida uma contradição entre se situar no terreno do não humano e dizer que se busca conhecer o humano. Será isso? Ou será que a contradição é fazer uma pesquisa em Ciências Humanas que não toma o humano como dado? Seria o tom existencial de meu princípio epistemológico? Ou ainda, seria a proposta aparentemente inconsequente de pesquisar aquilo que ainda não sabemos? Isso se não for a ilogicidade de se propor a pesquisar o negativo de algo que não se conhece. Vou tentar eu mesmo relacionar as duas frases para ver se a alegada contradição aparece de vez ou se desfaz. Acho que é um esforço válido, pois são estes os pressupostos, princípios e objetivos de minha pesquisa. Na primeira frase, digo apenas que vou me situar "de início" no terreno do não-humano, e não que não me interesso pelo humano. Pelo contrário, é justamente pelo fato de que a minha questão última é a compreensão do humano (antropologia, ciências humanas) que eu opto por não assumí-lo de início, esperando que ele surja apenas ao final da pesquisa, e mesmo assim como tendência ainda longe de ser atualizada plenamente (quanto mais "superada"). Mas (poderiam perguntar), se digo que não sabemos o que é o humano, então como posso saber o que é o não-humano? Ora, por "não-humano" não entendo aquilo que está excluído do conjunto "humano", mas sim aquilo que se situa "antes" da divisão do campo entre humano e não-humano. Talvez seja um uso infeliz da palavra. Talvez fosse melhor usar a "realidade pré-individual" do Simondon. Porém, usei o termo segundo a ANT, que, me parece, não opõe o humano ao não-humano, mas sim dissolve aquele neste (posso estar errado aqui). Enfim, quando digo que pretendo partir do terreno das complexidades virtuais do não-humano, é justamente para que no final seja produzido algum conhecimento realmente novo sobre o humano (e não reformulações de axiomas que já conhecemos sobre a humanidade e a natureza humana). Será que ficou mais contraditório ainda?

Bom, acho que essa resposta já ficou longa demais. Gostaria apenas de agradecer a disposição de APLima em ler o texto e colocá-lo em discussão. Me ajudou a repensar algumas questões e também a perceber como minhas idéias chegam aí do outro lado das nossas interfaces disciplinares.

Pedro P. Ferreira


[Oi Pedro. Legal! Acabo de ver sua resposta altamente instigante. Não sei quanto tempo demorarei para tentar re-re-comentar a sua réplica, portanto coloco essa pequena nota a título provisório (a ser em breve substituída pelos comentários propriamente ditos). Por ora, asseguro-lhe de que nada do que eu coloquei acima sobre o seu texto foi com intenção pejorativa. Considero realmente que uma noção de "xamanismo genérico" possa ter seus usos, ainda que estritamente analíticos. Em minha própria pesquisa existem muitas noções "genéricas", ou "universais", por assim dizer, em diálogo com outras que não o são. (Em tempo, se você tiver interesse, podemos nos corresponder por email, onde poderíamos trocar projetos, textos, etc. Tentarei achar o seu email, e o meu creio que pode conseguir com Marcio Goldman. Prefiro não postá-lo online por razões óbvias. Grata. Ana Paula Lima)]

[editar] Nota sobre "xamanismo genérico"

O "re-re-comentário" de Lima, infelizmente, nunca veio à luz. Resolvi, assim, inserir aqui uma pequena nota comentando a pequena nota que ela redigiu acima. Tomei essa iniciativa pois recentemente, relendo o artigo "Shamans versus Pirates in the Amazonian Treasure Chest" de Beth A. Conklin (American Anthropologist 104(4):1050-60, 2002), vi que a antropóloga usa o termo "xamanismo genérico" no sentido pejorativo que eu achei ter sido aquele usado por Lima (uma visão genérica de xamanismo que seleciona apenas os elementos que interessam e não leva em conta as complexidades dos xamanismos particulares). Cito Conklin:

"This generic brand of shamanism diverges from actual Native Brazilian practices in two major ways: Shamanism is divorced from images of conflict, killing, and death; and medicinal plant use is represented as the core of shamanic practice and expertise" (Conklin 2002:1056).

Eu diria que o xamanismo genérico criticado por Conklin (e também, segundo ela, por muitos xamãs), se aproxima muito mais do neo-xamanismo que eu repudiei (talvez em excesso) no meu texto do que com o conceito de xamanismo que eu proponho (e que eu reconheço não ter sido definido de maneira adequada no texto-apresentação, deixando margem a dúvidas).

Enfim, fica aqui a nota para refletir sobre o conceito de xamanismo genérico, que vai na direção contrária à minha proposta.

Pedro Ferreira.


[É verdade, me desculpe! Estou tentando aos poucos desenvolver alguns pontos dessa discussão em outra página - ver infra]


Entretanto, sobre o seu novo comentário acima, adianto logo que o que eu entendi do que teria sido um uso seu de uma noção de xamanismo (genérico, talvez) seria o que coloquei no 1º parágrafo, ou seja, algo como "ir a fundo em seu próprio corpo", corpo sendo entendido aqui primordialmente em um sentido encontrado no AE, que é o corpo do socius -- ou um pouco mais apuradamente: o complexo engendrado pelas máquinas desejantes enquanto rebatidas sobre um determinado plano que é o que chamam de corpo sem órgãos (que corpo sem órgãos/pleno está predominantemente em jogo esse para cada um desses complexos é um ponto fundamental para que se avalie a dimensão e extensividade/intensividade relativas aos diversos modos de produção desejante, os quais de maneira alguma devem ser confundidos com sociedades pura e simplesmente). Assim, diferentes socius - ou melhor, "regimes de signos" segundo o Mille Plateaux - acionam elementos distintos e agenciam-nos em planos diversos, o que faz com que o xamanismo indígena, não como um movimento puro, mas como parte de um complexo ético-estético-político (Guattari, As Três Ecologias, por exemplo), só possa ser bem diverso do que engendra ou pode engendrar esse mesmo movimento enquanto parte do complexo <xamanismo cibórgico-tecnológico> -- enfim, maquinismos com engrenagens distintas. Mas corrija-me se eu estiver enganada quanto ao seu uso. De toda forma eu achei que essa aproximação entre dois complexos através do que chamei -- talvez não tão felizmente -- de "xamanismo genérico" pudesse dar panos para manga.


Prosseguindo -- alguns pontos:

  • Bem, quanto ao maquinismo, uma vez que se considera o próprio inconsciente maquínico (D&G e G), penso que só se pode mesmo dizer que toda forma musical é também maquínica --nem mais nem menos -- cada uma lançando mão de elementos/engrenagens específicas, mesmo a voz, ou o discurso acoplado, enfim, não apenas elementos supostamente "exteriores" ao corpo humano como partituras ou máquinas, já que o próprio corpo humano é tomado aqui como máquina antes de mais nada -- a sua eventual organicidade adviria mais de um anti-movimento, de uma estática pouco engajada (uma percepção mórbida, quase) do que da movimentação ativa das engrenagens e pedaços que cortam, bloqueiam ou deixam passar fluxos variados, segundo eu entendo. Pelo que entendi dos seus comentários, acho que você tb concorda com isso. Mas quanto à questão de determinados estilos musicais estarem mais congruentes e melhor acoplados a essa máquina mais ampla chamada socius, eu creio que há aí realmente um ponto não tão secundário, como entendo que vc colocou no ponto (3). Para mim (embora eu não seja estudiosa de música eletrônica) essa sensibilidade urbano-tecnológica extremamente coordenada com seu tempo-espaço própria a esse estilo musical parece informar sim a maior eficácia xamânica (se o for, entendo que é algo que vc está perscrutando) da música eletrônica. É isso o que a meu ver pode eventualmente fazer com que ela "cole" da forma que cola no cenário urbano atual. Assim me parece que as três características que vc lista ao final do ponto (3) são na verdade não geradas por essa sensibilidade, mas condicionadas por ela. Eu não sei, mas esse tipo de maquinismo dessa forma de música me parece paralelo ao que o advento do maquinismo polifônico fez na Renascença com o maquinismo mais flat e de linhas finitas e retornantes mais próprio ao modalismo pré-polifônico (dual, no máximo). Uma puta manipulação também destinada à imersão no som que igualmente independeu, por muito tempo, de qualquer discurso acoplado --o que não significa, muito pelo contrário, que não estivesse congruente talvez com a nova sensibilidade urbana de então (florescimento das cidades pós-dark ages ?), bem como com uma estética extremamente "povoada" e de superposição de camadas que começava a imperar então, cujo destino e ápice, como se sabe, foram os excessos do barroco.

(continua mais tarde)

Ana Paula Lima

[editar] Musica e transe

Nao consigo acompanhar inteiramente esta discussao, mas queria sugerir uma leitura que possa ser util para os interessados no tema: "La musique et la transe" (Paris, Gallimard, 1990), do etnomusicologo Gilbert Rouget. -DJM